O ano em que o Tempo se apresentou para mim.
- Juliana Sae

- 8 de mar.
- 2 min de leitura
“Mãe, pai, a gente já chegou?”
Era a segunda pergunta que saía da minha boca em toda a viagem de carro - logo que o carro saía da garagem. A primeira era: “Mãe, pai, que tem de lanchinho?” Depois do lanchinho feito e os farelos de comida devidamente espalhados por todo o carro, lá vinha ela novamente fazer sua aparição: “Mãe, pai, a gente já chegou?”.
Eu nunca entendi as risadas que vinham dos bancos da frente depois dessa pergunta. Bancos esses ocupados pelos grandes navegantes: os adultos, que sabiam falar a língua dos mapas, dos planejamentos e dele, um amigo que se aproximava devagar, bem aos pouquinhos: o tempo. Meus pais sabiam falar a língua do tempo e eu ficava animada querendo saber também.
Cresci. O lanchinho que precisava ser feito uma hora depois do almoço se espaçou. As perguntas se já tínhamos chegado diminuíram de noventa e cinco para apenas uma. Eu enfim havia aprendido a entender a língua do tempo. Esse companheiro amigo que seguiu viagem comigo por onde fui.
A data do nosso encontro mais formal, eu me lembro muito bem. Escola, carteira de madeira, estojo cheio de caneta colorida de glitter com cheiro de morango. Agenda nova! Oba, depois das férias, era hora de estar com os amigos de novo e aprender coisas novas.
Abro a agenda e consigo lembrar desse momento como se fosse um filme. A caneta de glitter azul começa a deslizar no papel e lá ele se apresenta: 1998. O ano em que o Tempo se apresentou para mim. Como uma chuva que chove dentro da gente, no corpo e na alma, algo em mim percebeu e entendeu a passagem de um ano para outro. Foi como se algo tivesse acendido dentro de mim, como se agora a vida tivesse passado a ser dividida em capítulos: os anos.
Segui vivendo cada um desses capítulos com ele, o Tempo, sempre ali. E eu, cada vez mais fluente na sua linguagem.
De uns anos para cá, ele, que andava mais tímido, resolveu se amostrar. Se fez presente em cada criança com que convivo, esticando perninhas que antes eram redondas e agora são compriiidas. Levando embora o “Professora Zuliana, que horas é a hora do lanci?”, e trazendo o “Juliana, são 15h30. Já tá na hora do lanche?”
E a última desse danado foi me dar um sacode. No dia do seu aniversário de trinta e cinco anos, meu corpo parou em frente ao espelho e lá estava ele: o Tempo, agora um velho conhecido. Dessa vez, me presenteando com rugas novas e alguns fios de cabelo branco.
Minha nossa, que horas eu passei para o banco da frente que eu nem vi?!
“Tempo, a gente já chegou?”



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